DOL e a Sociedade 5.0: Da Observação de Gehl e Whyte à Mensuração da Permanência Urbana
Nas últimas décadas, o planejamento urbano contemporâneo foi profundamente influenciado pelo conceito de Desenvolvimento Orientado ao Transporte (TOD — Transit-Oriented Development ), focado em otimizar fluxos, densidades e deslocamentos ao redor de eixos de mobilidade. No entanto, o arquiteto paisagista brasileiro Gustavo Garrido, um dos principais expoentes do Desenvolvimento Orientado ao Lazer (DOL), propõe uma mudança essencial de paradigma: enquanto o TOD ensinou as cidades a otimizarem o deslocamento, o DOL ensina a otimizar a permanência.
A premissa central do DOL estabelece que o lazer e a permanência voluntária são os principais indicadores da qualidade de um lugar. Quando uma pessoa decide ficar em um espaço sem a obrigação funcional de estar ali — seja para conversar, descansar, contemplar, brincar ou simplesmente observar o movimento —, ela está exercendo uma escolha intencional. Essa escolha carrega informações valiosas sobre o desempenho do espaço urbano. Para transformar o DOL de uma hipótese conceitual em uma metodologia prática de projeto, surge a questão fundamental: como medir a permanência e a qualidade da vida urbana?
A Provocação Japonesa: Otimizar o Propósito com a Sociedade 5.0
É nesse ponto de inflexão que o conceito de Sociedade 5.0 (Society 5.0), formulado pelo governo do Japão em 2016, integra-se perfeitamente ao DOL. A Sociedade 5.0 não se resume ao acúmulo de dispositivos tecnológicos ou big data; seu princípio orientador é a construção de uma sociedade centrada no ser humano, na qual a integração entre o espaço físico e o espaço digital serve para resolver problemas sociais e elevar a qualidade de vida.
No planejamento urbano tradicional, aprendeu-se a contar veículos, passageiros, tempos de percurso e volumes de tráfego. A Sociedade 5.0, em sinergia com o DOL, propõe alterar a pergunta central: não basta otimizar a eficiência do sistema viário, é preciso otimizar o seu propósito humano. Em vez de apenas medir como as pessoas se movem, a tecnologia deve nos ajudar a compreender por que as pessoas ficam.
Essa abordagem tecnológica orientada ao bem-estar conecta-se diretamente com o modelo de “Happy City”, concebido por Charles Montgomery, que prioriza a infraestrutura emocional, os vínculos comunitários e o acolhimento, assim como com os princípios da Nova Agenda Urbana (NUA) da ONU-Habitat, que incentiva soluções de cidades inteligentes voltadas para a sustentabilidade e a escala humana.
Da Observação Empírica aos Sensores: O Caso BenchMark do MIT
Grande parte do repertório do urbanismo humanista nasceu da observação direta. William H. Whyte utilizou filmagens para analisar o comportamento em praças de Nova York, identificando como a presença de assentos e pequenos detalhes físicos determinavam o sucesso de um espaço público. Da mesma forma, Jan Gehl fundamentou sua obra no mapeamento sistemático das atividades humanas ao nível dos olhos.
A aplicação da Sociedade 5.0 ao DOL avança sobre esse legado sem substituir a sensibilidade do olhar humano, mas ampliando a capacidade de leitura do espaço. Um exemplo experimental marcante é o projeto BenchMark, desenvolvido pelo Civic Data Design Lab do MIT (Massachusetts Institute of Technology). O projeto explora o uso de sensores em bancos e mobiliário urbano para compreender a relação entre as pessoas, os objetos e o ambiente.
Com essa evolução metodológica, um banco deixa de ser apenas uma linha estática desenhada em uma planta de arquitetura e passa a gerar informações em tempo real sobre a dinâmica do espaço público:
- O mobiliário foi ocupado?
- Por quantas pessoas simultaneamente?
- Qual foi o tempo médio de permanência?
- Em quais horários do dia e sob quais condições microclimáticas?
O Mapa de Permanência e o “Digital Twin” da Vida Urbana
A ampliação dessa lógica para praças, parques, calçadas e condomínios permite estruturar redes discretas de captura de dados. Sensores ambientais e radares anônimos podem registrar tanto variáveis físicas (temperatura, umidade, ruído, luminosidade e vento) quanto padrões de ocupação e movimento.
A riqueza dessa convergência entre o DOL e a Sociedade 5.0 reside no cruzamento contínuo dessas variáveis:
- Sombra × Ocupação: Como a variação do sombreamento arbóreo altera o uso dos bancos ao longo do dia?
- Ruído × Tempo de Permanência: Qual o limite de ruído acústico que desacelera ou repele a permanência de idosos e famílias?
- Mobiliário Fixo × Sociabilidade: Como o arranjo espacial do mobiliário urbano fixo e bem planejado favorece encontros informais?
- Playground × Permanência de Adultos: De que maneira o conforto dos acompanhantes nas bordas do espaço estende o tempo de brincadeira das crianças?
A partir dessa análise, arquitetos e gestores públicos podem produzir o Mapa de Permanência — uma cartografia dinâmica que desenha onde as pessoas ficam, quanto tempo permanecem e em quais condições físicas e ambientais. Esse mapeamento constitui um verdadeiro digital twin (gêmeo digital) da vida entre os edifícios, representando não apenas a geometria das construções, mas a dinâmica real da vida urbana.
O Índice DOL (IDOL): Cinco Dimensões de Avaliação Espacial
Para consolidar essas métricas em um indicador aplicável a projetos de arquitetura paisagística e gestão municipal, propõe-se a estruturação do Índice DOL (IDOL). O IDOL tem como objetivo mensurar o desempenho de um espaço a partir da vida comunitária que ele efetivamente produz, desdobrando-se em cinco dimensões fundamentais:
- Permanência: Avalia o volume de pessoas que optam por ficar no local e a duração média da sua estadia.
- Sociabilidade: Mede a frequência de encontros, agrupamentos espontâneos e atividades compartilhadas.
- Diversidade: Observa a variedade de perfis de usuários (crianças, idosos, jovens), a pluralidade de atividades e o uso distribuído ao longo de diferentes horários do dia, alinhando-se aos geradores de diversidade de Jane Jacobs.
- Conforto: Analisa as condições microclimáticas, acústicas, luminosas e a qualidade da vegetação e do sombreamento.
- Escolha: A variável mais decisiva do índice. O IDOL distingue o pedestre que está em um local por mera necessidade de passagem daquele que escolhe permanecer porque deseja estar ali.
O Futuro do Paisagismo nas Cidades Brasileiras
O Desenvolvimento Orientado ao Lazer, enriquecido pelas tecnologias e pela filosofia humanocêntrica da Sociedade 5.0, aproxima o rigor dos dados da sensibilidade do desenho urbano. Ao aplicar o IDOL e ferramentas de monitoramento em intervenções táticas — como parklets, ruas de lazer e a estruturação de espaços de permanência qualificados —, arquitetos e prefeituras ganham a capacidade de testar, ajustar e aprimorar os espaços públicos em tempo real.
Integrar essa inteligência urbana ao trabalho de Gustavo Garrido permite transformar cidades brasileiras em polos atraentes para a Classe Criativa de Richard Florida, mas, acima de tudo, em lugares mais acolhedores, seguros, prósperos e humanos para todos os cidadãos.
Fontes Citadas e Referências de Estudo
- BERTOLINI, Luca. From “streets for traffic” to “streets for people”: can street experiments transform urban mobility? Transport Reviews, 2020.
- CIVIC DATA DESIGN LAB (MIT). BenchMark Project: Sensing Urban Furniture. Massachusetts Institute of Technology.
- GEHL, Jan. Cities for People. Island Press, 2010.
- JACOBS, Jane. Morte e Vida de Grandes Cidades. São Paulo: Martins Fontes, 1961.
- JAIN, Trilok Kumar. Happy City: Prioritizing Emotional Infrastructure and Well-being in Urban Design. SSRN, 2018.
- MONTGOMERY, Charles. Happy City: Transforming Our Lives Through Urban Design. Farrar, Straus and Giroux, 2013.
- ONU-HABITAT. Nova Agenda Urbana (NUA). Declaração de Quito, 2016.
- WHYTE, William H. The Social Life of Small Urban Spaces. Project for Public Spaces, 1980.
Links Recomendados para Consulta
- MIT Civic Data Design Lab (Projeto BenchMark): https://civicdata.mit.edu
- Cabinet Office do Governo do Japão — Society 5.0: https://www8.cao.go.jp/cstp/english/society5_0/index.html
- Gehl People (Mapeamento de Vida Urbana): https://gehlpeople.com
- Project for Public Spaces (William H. Whyte): https://www.pps.org
- ONU-Habitat — Nova Agenda Urbana: https://unhabitat.org/sites/default/files/2020-07/nua-portuguese-brazil.pdf


