A cidade que cobra para existir: por que precisamos de espaços gratuitos

se você quer encontrar alguém, quase sempre precisa comprar alguma coisa. Um café, uma cerveja, um almoço, um ingresso, uma consumação

Há uma frase que me persegue há anos, desde que comecei a mapear praças e parques do Brasil inteiro no grupo de pesquisa da FAUUSP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo): o lazer é o principal indicador da qualidade de um lugar. Não estudamos o lazer porque queremos entender o lazer em si. Estudamos o lazer porque ele revela a qualidade do lugar. E quando olhamos para as nossas cidades através dessa lente, o que vemos é preocupante.

No Brasil — e diga-se, em grande parte do mundo —, se você quer encontrar alguém, quase sempre precisa comprar alguma coisa. Um café, uma cerveja, um almoço, um ingresso, uma consumação. Mesmo quando dizemos “vamos nos ver por aí”, na prática queremos dizer “vamos nos ver em um lugar onde depois, de alguma forma, teremos que consumir”.
Parece normal. Parece até inevitável. A cidade contemporânea funciona assim: se você quer estar com os outros, precisa entrar em um circuito de consumo. Se você quer passar um tempo fora de casa, precisa sentar em algum lugar e fazer um pedido. Se você quer ocupar um espaço público, precisa justificar sua presença com uma nota fiscal.
O problema é que, de tanto pensar assim, esquecemos de uma coisa enorme: uma cidade deveria oferecer lugares onde estar junto sem ter que comprar nada.

O tempo livre virou despesa

Não é uma questão nostálgica. Não é o discurso de que “antes era melhor”. É uma questão política, urbana, social. Porque a forma como uma cidade organiza seus espaços diz muito sobre o tipo de comunidade que deseja construir.

Para uma geração que vive entre salários comprimidos, aluguéis cada vez mais altos, trabalho intermitente e um futuro incerto, até a sociabilidade corre o risco de se tornar um luxo. Sair custa caro. Conhecer pessoas custa caro. Passar uma noite fora custa caro. Até mesmo apenas “estar” custa caro.

Jan Gehl, em Cidades para Pessoas, nos lembra que a vida urbana é um processo autorreforçador: pessoas vão onde pessoas estão. Quando os espaços públicos de qualidade desaparecem ou são capturados pela lógica do consumo, a vida pública não migra — ela simplesmente se extingue. A cidade não perde apenas lugares; perde relações, perde encontros, perde aquele “balé das calçadas” que Jane Jacobs descreveu como a verdadeira segurança e a verdadeira vida de um bairro.

As praças não bastam se não forem vivíveis

Algumas praças brasileiras são mais atravessadas do que vividas. Outras foram engolidas pelo trânsito. Outras ainda se transformaram em espaços de consumo, ocupadas por mesas de bar, fluxos turísticos, food trucks. Algumas viraram cenários — belas para fotografar, difíceis de habitar.

Jane Jacobs foi categórica sobre isso já em 1961: parques não são bons por natureza. O sucesso de um parque não depende de seu design isolado, mas da vitalidade do entorno. Um parque cercado por uma única função — seja ela residencial, comercial ou de escritórios — tende a ficar vazio na maior parte do dia. Um parque cercado por diversidade de usos, que traz pessoas em horários diferentes, floresce. Rittenhouse Square na Filadéphia é o exemplo clássico de Jacobs: vive porque o entorno é diverso. Washington Square, na mesma cidade, morreu porque o entorno era monocultural.

Isso se conecta diretamente com a tese que defendo: o lazer como infraestrutura da felicidade. Não o lazer como diversão eventual, como férias ou fim de semana. O lazer como indicador:  esporte, como férias, etc. Quando uma praça está viva, quando um parque é habitado, quando uma calçada convida ao permanecer — isso revela que o lugar funciona. Revela que há diversidade, que há escala humana, que há o que Gehl chama de “bordas suaves”: terrenos de uso misto, vitrines ativas, transições graduais entre o privado e o público que geram sete vezes mais vida urbana do que fachadas cegas e monótonas.

Desenvolvimento Orientado ao Lazer

O Plano Diretor de São Paulo foi reformulado em 2014 com uma teoria chamada Desenvolvimento Orientado ao Transporte (DOT): onde há metrô e corredores de ônibus, deve haver mais verticalização, mais adensamento, para otimizar a infraestrutura de mobilidade. É uma lógica racional, até certo ponto.

Mas proponho uma evolução: Desenvolvimento Orientado ao Lazer. Além de de pensar apenas onde as pessoas se locomovem, pensar onde as pessoas escolhem ficar. Essa visão direciona ao investimento direto na melhoria do espaço público (ruas, calçadas, praças, parques…) não tratando apenas como um efeito colateral resultante de benefícios de aumento de potencial construtivo. Porque o valor de uma cidade não está apenas no que ela constrói, mas na qualidade do tempo que as pessoas escolhem passar nela.

O Brasil investe bilhões em moradia, mobilidade e infraestrutura, mas ainda investe muito pouco em lugares para viver. Parques, praças, clubes, waterfronts, parques lineares, playgrounds, ciclovias, calçadas — tudo isso é tratado como acessório, como acabamento, quando deveria ser tratado como estrutura. O lazer não é um luxo. O lazer é uma infraestrutura essencial para a qualidade de vida.

Quando Gehl diz “primeiro a vida, depois o espaço, depois os edifícios — nessa ordem”, ele está dizendo exatamente isso. Não começamos pelo prédio e vemos se a vida acontece. Começamos pela vida que queremos, desenhamos o espaço para ela, e então construímos. A Síndrome de Brasília, como ele chama, é o oposto: planejar de cima, ignorar a escala humana, e depois se perguntar por que ninguém quer ficar nos espaços públicos.

A responsabilidade de habitar

Há, no entanto, uma pergunta que devemos fazer com honestidade: quanto estamos realmente dispostos a tornar esses lugares vivos?
Pedir espaços públicos é justo. Exigir bibliotecas abertas, praças vivíveis, centros culturais e lugares gratuitos é necessário. Mas depois esses espaços precisam ser atravessados, habitados, cuidados, discutidos, defendidos. Não basta que existam. Devem encontrar uma comunidade disposta a usá-los.
Jacobs nos ensinou que a segurança de uma rua não vem da polícia — vem da rede intrincada de controles voluntários das pessoas que a habitam. Os “olhos na rua”, o padeiro que guarda as chaves do vizinho, a lojista que conhece todo mundo pelo nome. Essa vida pública informal é o fundamento da confiança urbana. E ela não acontece se ninguém permanece no espaço público tempo suficiente para torná-lo seu.

Talvez não sejamos apenas vítimas de uma cidade que não oferece espaços. Talvez sejamos também uma geração que, em parte, perdeu o hábito da sociabilidade espontânea. Estamos acostumados a nos organizar apenas se houver um evento, um panfleto, um motivo preciso. Temos dificuldade em ficar sem programação. Em falar com desconhecidos. Em nos apresentar. Em começar algo. Em permanecer num lugar tempo suficiente para torná-lo nosso.
Precisamos de espaços, sim. Mas também precisamos reaprender a ser sociais. Não de forma performática, não simplesmente presentes no mesmo lugar, mas verdadeiramente disponíveis para o encontro.

De usuários a habitantes

Uma praça permanece vazia se ninguém a atravessa com desejo. Uma biblioteca permanece um edifício se ninguém a vive como casa comum. Um centro cultural permanece uma sala vazia se não houver pessoas dispostas a trazer para dentro tempo, ideias, conflito, cuidado, presença.
Talvez o ponto seja exatamente este: pedir lugares onde não comprar nada significa também aceitar uma responsabilidade. A de não ser apenas usuários da cidade, mas habitantes. Não apenas público, mas comunidade. Não apenas espectadores de algo organizado por outros, mas pessoas capazes de tornar vivo um espaço com a própria presença.
O lazer é o principal indicador da qualidade de um lugar. Quando os espaços de lazer gratuitos, acessíveis e vivíveis desaparecem, não perdemos apenas lugares para relaxar. Perdemos a própria medida da nossa qualidade de vida urbana. E essa é uma perda que nenhuma nota fiscal pode cobrir.
Gustavo Garrido é arquiteto paisagista, presidente da ASBEA-SP e Head da Archscape. Curador de conteúdo da Expo Lazer, dedica-se a pesquisar e defender o lazer como infraestrutura essencial da qualidade de vida nas cidades.