Nas últimas semanas, multiplicaram-se pelo mundo mensagens e artigos sobre a morte e a obra de Kongjian Yu. Não é de se espantar: sua contribuição, visionária e comprometida com a sustentabilidade, inspira arquitetos e urbanistas em todos os continentes. Mas há um aspecto pouco lembrado no Brasil e que é essencial para compreender a dimensão de seu legado: sua verdadeira formação.
Embora muitos o apresentem como arquiteto ou urbanista, Kongjian Yu era, na verdade, arquiteto paisagista — ou landscape architect, como é reconhecido internacionalmente. Graduou-se e fez mestrado em Pequim, mas foi na prestigiosa Graduate School of Design da Universidade de Harvard que realizou seu doutorado e desenvolveu o conceito que o tornaria mundialmente conhecido: as Cidades Esponja.
Por que essa distinção importa? Porque a arquitetura da paisagem é uma disciplina que combina arquitetura e urbanismo com geografia, ecologia, arte, botânica e infraestrutura civil. É uma formação holística, voltada a compreender e articular os sistemas naturais com as necessidades humanas. Foi justamente dessa síntese que nasceu o conceito das cidades capazes de absorver, armazenar e reutilizar a água da chuva, transformando um problema em solução: infraestrutura verde para um planeta em crise.
O trabalho de Kongjian representa a arquitetura da paisagem em seu mais alto nível. Seus projetos unem ciclos naturais e vida urbana, recuperando saberes ancestrais e elevando-os a uma escala metropolitana. A infraestrutura construída surge sempre como o mínimo necessário — pontes, passarelas, coberturas — mas cada elemento é concebido com rigor estético e precisão técnica, transformando-se em arte pública. Mais do que belas obras, suas intervenções provam que é possível enfrentar a emergência climática conciliando natureza, cultura e desenvolvimento.
Esse talvez seja o aspecto mais doloroso de sua partida: a perda de alguém que mostrou, com clareza e exemplos concretos, que ainda é possível imaginar e construir cidades sustentáveis. Em um mundo onde os recursos naturais são cada vez mais escassos, e onde ainda se insiste em projetos urbanos que os tratam como infinitos, sua visão soa mais necessária do que nunca.
É claro que não se fazem cidades apenas com parques. Mas Kongjian Yu nos ensinou que eles podem ser motores de transformação, capazes de redefinir a qualidade de vida e até de impulsionar o desenvolvimento econômico. Que seu legado continue a inspirar não apenas arquitetos e urbanistas, mas também governantes, empresários e todos aqueles que têm poder de decidir o futuro de nosso território.


